O Pastor e o Bife Acebolado
_______Existem livros que acham você e não o contrário. É o mesmo com o "Propósitos do Acaso". Vivendo uma fase de minha vida em que eu me pego desafiando comodismos, me regojizei nessa leitura fascinante, onde ninguém tem realmente uma verdade pra passar sobre a vida, mas uma espécie de certeza: para sermos felizes, deveríamos todos abraçar o inevitável.
_______Fizemos uma bela viagem, de Nápoles ao Rio em trinta dias, com escalas em Gilbratar e no Recife. Cores, brisa, estrelas: a paisagem variava num plano sutil, quase intuitivo. Escapávamos do inverno europeu rumo a um verão igualmente cruel. A morte de um velho foi o único imprevisto. Fúnebre, mas cômico. Durante o velório, cada qual prestou sua homenagem. Uma senhora cantou árias de Tosca; outro, escultor, lhe prometeu um túmulo digno em terra firme. Quando iam lançar o corpo ao mar, apareceu um holandês de seus quarenta anos, mirrado e careca. Disse que era pastor em Madrestã: a cidade das madres. Ouvimos com reverência o seu sermão, que angariou simpatias sob o lema "Alma é cérebro, cérebro é carne". "Nosso espírito resume-se a um bife acebolado", apregoava. Dias depois, descobrimos que Madrestmã não existe: é Amsterdã ao contrário. E ele, um doido varrido. _______ (...) _______Esther limitou-se ao relato de uma conversa com o pastor maluco, a caminho do Brasil. _______- Apesar de biruta, ele dizia coisas sensatas. Perguntei-lhe por que pregava que o espírito não passava de um bife acebolado, pois a alma humana era mais complexa que isso. "É uma opinião", retrucou o pastor, "não um fato". "Fatos!", bufei. "O senhor quer fato maior que o amor, a razão, a sensibilidade?" E ele "Utilize seus ‘fatos' para m desmentir". Citei a Bíblia, Aristóteles, apelei para os gênios : "Bach era um bife?" "Bem temperado", garantiu o pastor. "Da Vinci?", e ele: "Uma grande ceia". Pois ocorreu o improvável. Acredite: ele me convenceu. Não do bife, naturalmente, mas de algo que traduziu numa frase curta: "Fé não é teorema". _______- Não é o quê? - Estranhou Mendes. _______- Teorema: uma idéia que precise ser provada. Na hora, também não entendi. Ele explicou: "Você se baseia em sentimentos, emoções, não em evidências". E eu: "Mas a vida é um milagre!" O pastor se enfezou: "Porcos e galinhas também vivem, porém não são tão ‘milagrosos'. Ora, por quê? Porque seu milagre é oportunista. Dos bichos se quer a carne, a matéria. Suas vidas pouco importam, um acessório, um estorvo! Se não vivessem, tanto melhor! Por acaso, a vida de uma galinha vale menos que a sua?"Aleguei ser mais sofisticada que uma galinha, para ouvir: "Então bote um ovo". _______Mendes deu uma gargalhada. _______- O pastor me sacudiu com as mãos - prosseguiu Esther. - "Por que a galinha não te comove, que crime cometeu? Não ser tão ‘sofisticada' quanto você? Então o crime é de Deus, e não dela. A menos que você ache que a galinha foi feita para te rechear o estômago". Falei que os animais sempre se alimentaram uns dos outros. Ele zombou: "Ora veja, agora você é um animal. Antes, era a filha dileta do Senhor. Pois saiba que, se por um lado os animais matam para sobreviver, por outro fazem isso sem falsos lirismos". Retruquei: "O senhor já tentou ser lírico com uma galinha?" E o pastor: "Nem com galinhas, nem com gente". Ponderou: "Nada tenho contra suas idéias. Mas são crenças, e não fatos. Há um abismo entre os dois. Por exemplo: a vida é um milagre. É mesmo? Quais seus parâmetros, quais as evidências? Cite um não-milagre". Desafiei: "E quando o senhor diz que a alma é um bife acebolado, é uma crença ou um fato?" Ele sussurrou: "Nunca morri, não sei se depois da vida tem sobremesa. Mas gosto dessa idéia e quem quiser que prove o contrário". - Esther estalou os dedos, revelando o porquê de sua dissertação: - Nunca precisei de evidências. Quem duvidasse, que provasse o contrário.
Escrito por Mestre Fernando às 23h49
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